É possível um obeso ser saudável?

Hoje temos um post diferente. Raramente costumo publicar textos que saem em outros sites, mas abri exceção pois o conteúdo desse artigo é bem bacana. E uma dúvida recorrente a muita gente.

O Post foi escrito pela Profª  Fabiana Benatti, do Blog Ciência Informa, e republicado aqui com permissão dos colaboradores do site. (O post original encontra-se aqui!)

Obesidade metabolicamente saudável – isso existe?

Você deve conhecer (ou já ter atendido) um paciente obeso que diz não apresentar qualquer alteração nos exames de rotina, como glicemia de jejum, lípides, etc. Então você imediatamente duvida dessa pessoa, já que você acompanha a literatura científica e tem certeza de que é impossível alguém ser obeso e ao mesmo tempo saudável. Será?

 

As evidências científicas são categóricas quanto à relação direta entre a obesidade e o risco de desenvolvimento de doenças metabólicas, como diabetes do tipo 2, dislipidemias e hipertensão arterial. Contudo, gostaria de chamar sua atenção para a palavra “RISCO”. Isso quer dizer que embora uma pessoa obesa tenha, de fato, maior “risco” de desenvolver essas doenças, ela não necessariamente irá desenvolver essas doenças.

 

De fato, diversos estudos científicos mostram (e também observamos isso na prática) que são muitos aqueles indivíduos obesos que não apresentam qualquer disfunção metabólica sendo chamados de “obesos metabolicamente saudáveis”.

 

Mas o que diferencia estes sujeitos daqueles metabolicamente não saudáveis?

 

Parece que os obesos metabolicamente saudáveis apresentam menor acúmulo de gordura na região superior do corpo, ou seja, menor acúmulo da gordura localizada entre os órgãos, a chamada gordura visceral, a qual está mais associada ao aumento do risco cardiovascular. Em contrapartida, estes sujeitos apresentam maior acúmulo de gordura na região inferior do corpo, a chamada gordura subcutânea, localizada no quadril e membros inferiores, além de maior capacidade de expansibilidade desse depósito de gordura. Embora isso possa parecer algo ruim, esta é uma característica extremamente benéfica ao metabolismo, uma vez que o excesso de gordura é depositado neste tecido e não em outros tecidos como no fígado, por exemplo, onde acúmulo de gordura, a chamada esteatose hepática, exerce efeitos bastante negativos.

 

Além disso, o estudo recente de Ortega e colaboradores, do grupo do renomado Prof. Steven Blair, mostrou que a prática de atividade física também parece contribuir para a obesidade metabolicamente saudável. Os autores avaliaram 5649 adultos obesos (isto é, com IMC > 30 Kg/m2), e relataram que os obesos metabolicamente saudáveis (os quais representavam 31% da amostra) apresentaram maior capacidade física (avaliada pelo teste de esforço máximo) sendo, provavelmente, mais fisicamente ativos, quando comparados aos obesos metabolicamente não saudáveis. Além da comparação por IMC, os autores também utilizaram percentual de gordura corporal como determinante da obesidade, e encontraram exatamente os mesmos resultados.

 

Essas evidências colocam em xeque a necessidade de “emagrecer” todo e qualquer indíviduo obeso, principalmente por meio de dietas restritivas. Em posts anteriores (do site Ciência Informa aqui e aqui), a Dra. Desire Coelho falou sobre a falta de eficácia das dietas, além dos prejuízos psicossociais como a preocupação exagerada com o corpo e a alimentação, a diminuição da autoestima, e o desenvolvimento de compulsões e transtornos alimentares como consequência.

 

Este estudo evidencia ainda o grande potencial terapêutico do exercício físico por si só, independente da perda de peso corporal, para indivíduos obesos. Sobre este tema, falaremos no próximo post. Por agora, fica a confirmação de que é sim possível ser obeso e saudável, principalmente levando uma vida fisicamente ativa!

 

Até a próxima!

 

Fabiana Benatti – Blog Ciência Informa

 

 

Referências:

 

Boonchaya-anant P, Apovian CM. Metabolically healthy obesity–does it exist? Curr Atheroscler Rep. 2014 Oct;16(10):441.

 

Stefan N, Häring HU, Hu FB, Schulze MB. Metabolically healthy obesity: epidemiology, mechanisms, and clinical implications. Lancet Diabetes Endocrinol. 2013 Oct;1(2):152-62.

 

Snijder, M. B. et al. Independent and opposite associations of waist and hip circumferences with diabetes, hypertension and dyslipidemia: the AusDiab Study. Int. J. Obes. Relat. Metab. Disord. 28, 402–409 (2004).

 

Karpe F, Pinnick KE. Biology of upper-body and lower-body adipose tissue-link to whole-body phenotypes. Nat Rev Endocrinol. 2014 Nov 4

 

Ortega F, Lee D, Katzmarzyk P, Ruiz J, Sui X, Church T, Blair S. The intriguingly metabolically healthy but obese phenotype: cardiovascular prognosis and role of fitness. Eur Heart J 2013, 34:389-397

 


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